Nem louca, nem santa – Maternidade e carreira profissional: como não conciliar essas duas coisas – Blogagem Coletiva

Quando vi a chamada para a Blogagem coletiva do FemMaterna, com aquele não provocativo bem no meio da frase, mostrando que a discussão proposta vai no caminho inverso daquele apontado pelas grandes revistas de maternidade, lembrei que há muito tempo escrever um texto sobre este assunto. Sobre as minhas escolhas, sobre eu ter ‘largado tudo’ e escolhido me dedicar um tempo mais longo a ver minha filha crescer.

Sim, eu parei de trabalhar para cuidar da Mônica e é impressionante as reações que isso provoca nas pessoas. Para alguns sou uma espécie de semideusa, que abriu mão de um emprego público para ficar com a filha pequena. Outros me olham com condescendência, quase pena, por eu ter “aberto mão de parte da minha vida” para cuidar de uma criança. Outros ainda pensam que estou de férias “só em casa cuidando do bebê…” A verdade é que a escolha não foi assim tão difícil.

Quando estava grávida de cinco meses fui chamada em um concurso público que havia prestado há quase dois anos, fiquei feliz, teria plano de saúde, licença remunerada e uma tranquilidade a mais. Acontece que o salário não era lá essas coisas e ao fazer os cálculos mais de dois terços do valor que eu receberia seriam deixados na mensalidade de uma creche não necessariamente top de linha. Somando a esse custo os eventuais gastos com festinhas, uniforme, doenças da pequena, descontos de dias sem trabalhar que sempre acontecem eu estaria pagando para trabalhar. Meus pais trabalham, minha sogra mora longe, não havia um plano B, parei, sem culpa e sem remorsos…

Mais difícil foi tomar a mesma decisão pela segunda vez. Há algumas semanas fui chamada em outro concurso, feito na mesma época. Salário melhor, mais benefícios e aqui a escolha foi feita com base em uma convicção, a de não querer perder essa fase onde a intimidade, a dependência e a convivência com minha filha se dão de uma maneira que nunca mais irá se repetir na vida dela. Uma decisão tomada não por eu ser uma louca inconsequente que não pensa no próprio futuro (um dia ela será independente e você vai se arrepender!)  ou por ter vocação para santa abnegada que só pensa no melhor para a filha. Tomei essa decisão porque pude, porque tive direito a escolha.

Sei que sou uma privilegiada, direito de escolha é coisa rara por essas bandas, assim como apoio da família, do marido/companheiro/pai da criança, da sociedade. Em meus sonhos mais loucos todos teriam direito de escolher, de decidir de viver plenamente a criação de seus filhos. A vida de todas as famílias poderiam se adaptar à chegada dos filhos da maneira como for melhor… Neste mundo ideal nenhuma  mulher se sentiria culpada por não ser aquela mãe da revista, que é bem sucedida na carreira, cuida da casa, faz lanches saudáveis para os filhos, brinca com eles, está sempre linda e tem uma vida sexual de dar inveja aos cinquenta tons de cinza! A responsabilidade pela criação dos filhos seria compartilhada e não jogada como um fardo em cima de uma única pessoa…

É claro que no mundo real eu vejo – felizmente- muitas pessoas ‘dando um jeito’ de se encaixar na vida dos filhos. profissionais liberais de ambos os sexos reduzindo o ritmo para estarem mais próximos às crias, mães e pais empreendedores trabalhando por conta e mais perto de casa, pais que alternam os horários de trabalho para que cada um tenha um turno para ficar com os pequenos, home offices, avós que são o braço direito e esquerdo de pais e mães com a vida corrida… Mas não podemos fechar os olhos para o fato de que essas são alternativas individuais, quem pode e consegue dá um jeito, quem não pode suspira. larga o trabalho no qual queria continuar, adia sonhos, sai de casa todos os dias com o coração apertado para ir trabalhar. Pois quando falamos em sociedade temos uma licença paternidade de ridículos cinco dias, os seis meses de licença da mãe – vinculados socialmente às necessidades alimentares da criança e pouco às necessidades emocionais da dupla mãe e bebê –  dependem da boa vontade do empregador em aderir ao programa, creches públicas são uma utopia e milhares de mulheres deixam seus filhos em situações precárias para cuidarem dos filhos de outras mais abastadas…

No século XX nós mulheres conquistamos o direito de sairmos de casa e irmos atrás do nosso sustento e realização profissional, talvez no XXI nossa luta deva ser pela conquista do direito de todos nós – mulheres, homens e crianças – irmos aonde quisermos para conquistar nossa realização pessoal e, quem sabe, a felicidade

 

Anúncios

3 comentários sobre “Nem louca, nem santa – Maternidade e carreira profissional: como não conciliar essas duas coisas – Blogagem Coletiva

  1. Pingback: Blogagem coletiva – Maternidade e carreira profissional: como não conciliar essas duas coisas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s